Atenção: as palavras têm poder

Diante de casos de atropelamentos envolvendo ciclistas, muitas pessoas assim como os meios de comunicação, costumam utilizar com frequência as palavras acidente ou fatalidade ao se reportarem a estes eventos.

A escolha destes termos geralmente desconsideram a legislação de trânsito e acabam tendo como consequência, voluntária ou não, a invizibilização da vítima e a desresponsabilização do agressor.

Vamos começar pela definição destes dois termos, de acordo com a Infopédia.

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Agora que já conhecemos o significado destas palavras, que tal observarmos o que diz o Código de Trânsito Brasileiro?

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O Sonho foi Atropelado

Sinceramente, ontem pela primeira vez pensei em aposentar minha bike. Não está dando. Mais uma morte, depois da tragédia com o menino Pedro de apenas cinco anos.

Com exceção de uns poucos que propõem alguma ação fora do mundo virtual, a imensa maioria dos ciclistas que pedalam cotidianamente pela cidade, ou não se manifesta, ou continua achando que “indignação” pontual pelas redes sociais são suficientes. Isso aqui, face, whatsapp, instagram é só uma parte bem pequena que passou a fazer parte do nosso mundo. Não é suficiente.

Uso a bicicleta diariamente, com sol ou chuva, entre São Francisco (Niterói) e Central do Brasil (Rio). Metade do percurso não tem sequer ciclofaixa. Na parte do Rio isso ocorre quase todo caminho e me sinto mais seguro que pedalando em Niterói.

Tremo ao passar entre 22 e 23hs na Marques de Paraná, trecho do Hortifrutti. Na ciclofarsa da Roberto Silveira não é diferente. Nesse horário, no contrafluxo, motos e carros não obedecem aos sinas das ruas que cruzam a avenida principal. E na própria Roberto Silveira a velocidade dos carros no sentido contrário, motos invadindo a ciclofaixa nos dois sentidos e carros estacionados sobre ela, sem fiscalização, pré-anunciam uma nova tragédia.

É impossível não prever que posso ser o próximo. Que podemos, todos, sermos os próximos.

Além de pedalar, creio e defendo a cultura da bicicleta como alternativa para uma cidade melhor. Mas, hoje em dia me sinto oprimido a incentivar outros a pedalar. Me parece irresponsável da minha parte fazer isso.

A bike é um meio seguro. Mas, a irresponsabilidade do poder público extrapola. O descaso com nossas denúncias feitas de maneira individual e a inércia de outros ciclistas que nada fazem, são um incentivo à este pouco caso. No trânsito em Niterói mata-se e morre-se com naturalidade incomum.

Não dá para viver assim. Medo, insegurança, pouco, ou nenhum compromisso com a vida. Não dá. Já passamos da conta a muito tempo para continuar só falando por aqui e não fazendo nada.

Estou quebrando meu silêncio sobre isso depois de propor uma ação em um grupo do Whatsapp com quase 100 ciclistas e ter tido a uma receptividade mínima mediante o número de pessoas que leram e ignoraram. Fiz isso após uma moto ser fechada na Roberto Silveira e quase tirar a vida de outro ciclista. Antes da desgraça com o Pedrinho e mais essa morte ontem na Alameda, no Fonseca.

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Não está dando mais. Passou da conta assistir a tudo isso e não ver reação a altura. Ver que a imensa maioria continua calada, inerte e se considerando inatingível.

No sábado, poucos sabem, um integrante do Pedal Sonoro foi agredido por pessoas que deveriam se responsabilizar pela vida de todos no trânsito. No meu entender por que esse guerreiro ousou se manifestar individualmente sem o apoio da massa que pedala todos os dias em Niterói.

A omissão do poder público é real. Mas a omissão de companheiros ciclistas está me fazendo repensar tudo que penso sobre uma cidade melhor e humanizada. Não dá mais. Eu quero continuar pedalando. A bicicleta não é um vício para mim. Mas é uma paixão. Uma paixão que só posso manter se eu estiver vivo. E ao contrário do que percebo em muitos companheiros, eu me sinto um alvo hoje em dia.

colaboração de Marcelo Santos


 

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Duas semanas após o atropelamento brutal do Pedro de apenas 5 anos em Santa Risa, na última segunda-feira (24/09) em plena Semana Nacional do Trânsito, a ciclista-mãe-enfermeira Adriana de 48 anos perdeu sua vida atropelada na Alameda São Boaventura, no Fonseca.