A morte do ciclista na Av. Marquês de Paraná não foi um mero “acidente”

Na manhã desta terça-feira (24/09/19), um ciclista de apenas 33 anos perdeu a vida enquanto tentava cruzar a Av. Marquês de Paraná. Ele seguia para o centro de Niterói, situação que se repete com centenas de ciclistas diariamente.

Os veículos de comunicação, assim como muitos internautas, se referiram ao atropelamento como mais um “acidente”. Nós do coletivo Pedal Sonoro acreditamos que, neste caso, o termo não se aplica. Entenda o porquê!

HISTÓRICO

Durante a campanha eleitoral de 2012, o então candidato Rodrigo Neves prometeu investir na promoção da utilização da bicicleta na cidade. Para isso, ele utilizou uma cartilha que, dentre muitas propostas, dizia que “Niterói terá uma malha de ciclovias inteligente e interligada, com traçado eficiente e normas de segurança internacionais.”

captura-de-tela-2017-06-30-c3a0s-01-14-551.png

Conheça aqui as promessas de Rodrigo Neves (2012)

Após eleito, sua gestão implantou a ciclofaixa da Av. Amaral Peixoto em 2013. Em 2014, foi a vez da ciclofaixa da Av. Roberto Silveira ser reposicionada ao lado esquerdo da via. Depois a Rua São Lourenço, importante via de acesso à Zona Norte, recebeu sua infraestrutura cicloviária. Isso resolveu parte do problema de circulação das bicicletas dentro dos bairros.

Rua São Lourenço: ciclovia do descaso

Estas ações do poder público, representaram um avanço apesar de problemas na utilização dessas infraestruturas devido à falta de sinalização e fiscalização, e mandaram um recado aos cidadãos, já cansados de perder horas no trânsito e reféns de um transporte púbico de péssima qualidade: utilizem a bicicleta!

Muitas pessoas acreditaram nessa política e, incentivadas ainda pela extinção da cobrança de tarifa extra no embarque do transporte aquaviário, acabaram por adotar a bicicleta como meio de transporte em Niterói.

PONTO CRÍTICO

O problema é que estas infraestruturas implantadas na Zona Sul e Zona Norte que servem para possibilitar os usuários se deslocarem até – e a partir – do Centro da cidade, através da ciclofaixa da Av. Amaral Peixoto, não possuem conexão. Elas acabam justamente na Av. Marquês de Paraná e isso ocorre em ambos os sentidos, seja em direção à Zona Norte ou Zona Sul.

42163164_1523618657739113_4310838669037535232_o.jpg

Desde 2014 este trecho foi rapidamente identificado pelos ciclistas como um dos principais pontos críticos do sistema, por expor os usuários à enormes riscos. Desde então, já foram registrados dezenas de atropelamentos nesta via, alguns graves, envolvendo fraturas ou situações com risco de morte.

COBRANÇAS E PROMESSAS

Por isso, desde 2014, o coletivo Pedal Sonoro juntamente com outras iniciativas da cidade, cobra a implantação urgente desta conexão cicloviária junto à gestão municipal.

Em 2014, uma carta aberta foi entregue em mãos do então vice prefeito Axel Grael, durante uma bicicletada musical do Pedal Sonoro. Nada foi feito.

Em 2015, Axel Grael prometeu uma solução definitiva para dezembro deste mesmo ano durante a Audiência Pública – Sistema Cicloviário de Niterói na Câmara Municipal. Uma operação provisória com cones foi implantada e funcionou durante algumas semanas com sucesso, mas posteriormente foi abandonada pela NitTrans, sem nenhuma justificativa e sem qualquer outra solução para a segurança nesta via.

Marquês do Paraná terá ciclofaixa (O Fluminense, 2015)

rodrigo1.png

Em 2016, durante a campanha Bicicleta Nas Eleições, foi a vez de Rodrigo Neves se comprometer em “implantar, com urgência, a conexão cicloviária Zona Sul – Centro – Zona Norte (Avenidas Marquês de Paraná – Jansen de Melo), por meio de estrutura segregada do trânsito de veículos motorizados” ao assinar a Carta Compromisso pela Mobilidade Ativa. Este documento trazia 10 propostas para aumentar a segurança de quem pedala na cidade. Nenhuma delas foi colocada em prática.

Em 2018, após 3 atropelamentos de ciclistas em menos de 48h, realizamos um abaixo assinado para mais uma vez cobrar da prefeitura uma conexão neste trecho. O documento com mais de 2.800 assinaturas foi protocolado no gabinete do prefeito Rodrigo Neves e na ocasião, a prefeitura fez mais uma promessa: desta vez a obra seria realizada até novembro daquele ano (2018). Novamente, de nada adiantou.

Nos mais de 5 anos em que o problema foi identificado e das dezenas de vítimas, já cobramos publicamente e através de diversos ofícios legislativos a implantação desta conexão cicloviária, mas até o momento a prefeitura nunca deu a devida importância à esta reivindicação legítima dos ciclistas.

LEGISLAÇÃO

Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, Lei de 1997, a gestão do trânsito é uma questão municipal, diretamente ligada ao prefeito da cidade. Em Niterói, a cadeia de comando – e de responsabilidades – do trânsito tem como responsável Rodrigo Neves (prefeito), seguido por Renato Barandier Jr (Secretário de Mobilidade e Urbanismo) e, por fim, Paulo Afonso Cunha (presidente da NitTrans).

Ainda segundo o CTB, “os órgãos e entidades de trânsito pertencentes ao Sistema Nacional de Trânsito (SNT) darão prioridade em suas ações à DEFESA DA VIDA, nela incluída a preservação da saúde e do meio ambiente” e que “os órgãos e entidades componentes do SNT respondem, no âmbito das respectivas competências, objetivamente, por danos causados aos cidadãos em virtude de AÇÃO, OMISSÃO ou ERRO na execução e manutenção de programas, projetos e serviços que garantam o exercício do direito do trânsito seguro”.

O ATROPELAMENTO

Acreditamos que se a gestão municipal tivesse atentado para a legislação, assim como para as promessas de seus gestores, este incidente poderia ter tido um outro desfecho. Se a colisão do ciclista com a traseira do veículo tivesse ocorrido em um local com infraestrutura adequada, como deveria existir nesta via, dificilmente teríamos uma vítima fatal.

Agora, após esta morte evitável deste ciclista, a Prefeitura de Niterói informou em nota que vai antecipar a inauguração da ciclovia da Av. Marquês de Paraná para dezembro deste ano.

No entanto, esta obra, ao contrário do que foi prometido em diversas oportunidades, não contempla os ciclistas da Zona Norte, pois não prevê a conexão com a Rua São Lourenço, que registrou em uma contagem piloto realizada neste mês pelo coletivo Pedal Sonoro 476 ciclistas, apenas entre 7h e 9h da manhã.

42266483_1523618964405749_3000614189078151168_o

E até lá, Rodrigo Neves, quantos ciclistas terão que perder a vida para que a sua gestão resolva cumprir o que determina a legislação?

Cobramos uma AÇÃO, assim como responsabilidade por parte dos gestores municipais e que estes implantem EM REGIME DE URGÊNCIA uma solução, ainda que temporária, para garantir que o/as ciclistas – INCLUSIVE O/AS QUE MORAM NA ZONA NORTE – possam trafegar pela Av. Marquês de Paraná com um mínimo de segurança.

 

 

3 comentários

  1. Olá, colegas ciclistas.
    Quem quiser que me chame de mal educado, mas eu ando SIM por calçadas, parques, jardins, e tudo que for possível, faço isso quando não se tem ciclovias, ciclofaixas. A bicicleta é um meio de transporte como outro qualquer, mas não se tem o devido respeito aos ciclistas porque não pagamos o famigerado IPVA ao Estado, bem como a indústria automobilística não tem nenhum interesse que as pessoas usem a bicicleta para seus deslocamento nas cidades, daí interfere na ação dos governantes fazendo com que eles abram mais rodovias, pontes, viadutos, a rindo mais dias nas cidades, etc. Para quem não sabe a carga tributária que recai sobre a bicicleta é brutal, e não temos direito ao livre transitar por ineficácia e inresponsabilidade dos governantes, tanto a nível federal, estadual e municipal.
    É necessário acionar o “judiciário” para que se cumpra as leis sobre a mobilidade urbana. 👍🚴👍.
    CICLISTAS UNIDOS PELA VIDA

    Curtir

Deixe uma resposta para Jorge Fernando Menezes Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s