Pedalando Música [LAM]

Por Luiz Antonio Mello*

Um dia desses mergulhei numa experiência nova. Gravei uma playlist com músicas de minha adolescência, espetei o fone no ouvido e celular na cintura, peguei a bicicleta e mergulhei em vários roteiros que fazia na adolescência niteroiense.

Fui até a Rua Álvares de Azevedo e comecei a odisséia em frente ao número 140, de onde, lá na casa do cacete do tempo, descabelado, saia voando com a minha bicicleta Goricke azul aos gritos de “ô rapá, ô maluco!” dos populares, com meus 11, 13, 15 anos. Refeito, podes crer (como cantou um dia Maria Bethânia), sereno como os príncipes medievais invadindo Veneza, copulando animadamente a História ocidental, baixei a bola respeitando o meu ar senhoril atual. Amo Veneza. Não conheço, mas amo a ideia.

Na trilha sonora The Troggs, Leno & Lilian, Tropicália, The Beatles, Rolling Stones, The Byrds e Mutantes, subi a Álvares em direção à ciclofaixa da Av. Roberto Silveira, tendo em meu encalço o diabo verde, aquele ônibus. O spray de pimenta estava enrolado num casaco na cestinha e na esquina de Gavião Peixoto, a meio metro do meio fio direito, logo, dentro da Lei, olhei para a carranca do motorista do ônibus como se perguntasse “o senhor tem intenção de me matar, amarra cachorro?”. Ele olhou para o outro lado e me deu passagem. Não precisei subir no ônibus e usar o spray.

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No Campo de São Bento – que beleza! – vi alguns pássaros, aflitos sanhaços, uma garota e um garoto esmerilhavam fandangos encostados numa árvore, sorvendo a brisa relativa do inverno. Um homem vendendo churros, o guarda, o coreto, os pombos. Lá no meio daquele enorme e fundamental jardim, um cachorro tinha escapado da coleira.

Alvoroço, mas meu santo se dá bem com o santo dos cachorros. Desci da bicicleta e meio que falei “vem cá, meu chapa!”. Era uma cadela bull terrier branca, linda, meio garota, uns dois anos e, aturdida, acho que gostou de mim porque chegou perto. E deitou cansada (estressada) perto da bicicleta.

A dona estava histérica e começou a esculachar a cadela como se fosse a noiva de Eduardo Cunha. Tive vontade de me meter porque em briga de cadela e mulher eu meto a colher, porque ambas não merecem esse mal estar. Ambas são uma dádiva, uma benção. Só consegui murmurar “não faz isso não, moça. A cadela está assustada”. A moça respondeu “é”…

Pôs a coleira na cadela e levou, acho que enciumada. Pensei, final feliz seria ela perguntar: “Dá pra você ficar com ela? Não tenho jeito com cachorro”. e eu levaria aquela dama de quimono branco para passear pela vida na cesta da minha bicicleta, conversando sobre a sustentável leveza do ser, os efeitos do por do sol, amores, poemas. Sabe esses papos que temos com cães e bicicletas?

Rumei para São Francisco e como havia esquecido o protetor de ouvido fiquei meio aturdido com aquela infernal barulheira de carros, buzinas, engatei uma marcha de subida e… voltei para o Campo. Encostei a bicicleta em uma árvore, mochila no chão e dormi. Caramba, aquele lugar é uma tatuagem da adolescência de todo mundo.

E a música tocava, tocava, tocava, “Turn, Turn, Turn”… The Byrds!

* Jornalista, radialista, escritor, pesquisador de rock & blues e realizador do programa A Onda na Rádio Pedal Sonoro

 

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