Papo Reto pra Ciclista

Ando de bicicleta desde criança e há 13 anos a minha relação com a magrela mudou. Ela se tornou o meu principal meio de transporte. Tudo começou por uma questão econômica de deslocamento para a faculdade. Como todo estudante ‘raíz’, a grana era curta para ficar pagando passagem de ônibus. Os anos foram passando e a bike continuou em minha vida.

Descobri o mountain bike, uma outra paixão que é uma importante válvula de escape, principalmente em tempos brutos como este. Porém, a relação modal com a magrela é o que mais me instiga. O tempo passou, ela permaneceu em minha vida e me mostrou que é possível ter uma outra relação com a cidade, que é possível sim uma sociedade que não seja tão dependente do carro, que tenha planejamento de integração entre os meios de transporte, que seja mais humana. Tudo isso se tornou um modo de vida que acredito realmente ser viável.

Contudo, precisamos muito, muito e muito que xs ciclistas também tenham responsabilidade na construção deste mundo. Nos últimos anos, o número de usuários de bikes aumentou significativamente no Rio de Janeiro e em Niterói. A cada ano que passa mais pessoas compram a sua bicicleta e optam por este modo de vida “ativo”. Porém, o que tenho observado é que também é cada vez maior o número de ciclistas completamente irresponsáveis.

calçada.png

Ano passado fui atropelada por uma pessoa que estava andando na contramão com uma bicicleta compartilhada do Itaú na Lapa. O impacto foi tamanho que fiquei com o braço completamente dormente. Acredito que se fosse uma pessoa idosa, provavelmente teria fraturado.

Hoje, outro caso me chamou a atenção e fez com que eu iniciasse este textão. Numa via extremamente movimentada de Niterói eu me deparei com um ciclista na contramão. Para não colidir com ele, precisei me infiltrar no meio dos carros, literalmente.

Como disse meu amigo Marcelo Santos, provavelmente se fosse uma pessoa sem a experiência que eu tenho teria se acidentado com gravidade. Não dá, galera!

Não sou ciclista de ciclovia, embora as defenda com veemência. Ando com os carros e, por incrível que pareça, atualmente me sinto mais segura na pista do que numa via exclusiva para bicicletas. Isso se dá, principalmente, pela total irresponsabilidade e falta de bom senso de muitos ciclistas que pedalam mexendo no celular, que não olham para trás para cruzar a via, que andam em zigue-zague, sem falar no povo das bicicletas elétricas que anda na calçada e na ciclovia como se estivessem na pista com os carros. Galera, não dá para continuar assim. Definitivamente.

Muita gente que mantém a sua consciência carrocrata individualista na magrela, muita gente que continua não se importando com o outro e que age de forma egoísta e perigosa.

Há toda uma mobilização em prol de políticas públicas que sejam voltadas para o planejamento das cidades de forma mais humana, há toda uma batalha de inúmeros movimentos e coletivos organizados para que haja mais respeito dos motoristas para com os ciclistas. Essas tarefas são árduas, de constante pressão política que, aos poucos, têm gerado mudança.

Além das ações para transformarem as políticas vigentes, há os corpos que estão no dia a dia se expondo e resistindo para mudar o jogo violento que é o trânsito.

Porém, tem muita gente que está enfraquecendo. Muita gente que mantém a sua consciência carrocrata individualista na magrela, muita gente que continua não se importando com o outro e que age de forma egoísta e perigosa.

Por fim, só quero que vocês que estão escolhendo a bicicleta para se deslocar pela cidade, reflitam melhor sobre os motivos que os levaram a optar por este modal e, principalmente, o comportamento que vocês têm tido quando estão em cima de uma bike.

Na real, que tipo de cidade vocês estão ajudando a construir?

 

Jaqueline Deister (ciclista, jornalista e ativista social)

 

 

 

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